a memória é das matérias o brilhante que mais amo. turvo, complexo, abaulado, convexo e trincado. brilhante raro e ordinário: aos montes em cada esquina, em cada curva do mercado, cada balança de farmácia, avenidas, ruas, lojas de materiais de construção ou de aviamentos. brilhante dos botões de madrepérola que trinca a gola da camisa azul xadrez às três e trinta e dois em plena Cinelândia. brilhante na gota do suor, no prumo da ideia, cada um em seu formato, em sua luminescência, opacidade, quilate, cada um em sua própria raridade. às vezes saio de casa tendo certeza de qual tipo de matéria-prima vou trabalhar. de que memória estamos tratando, registrando, concretizando pelo olhar. outros dias saio de peito aberto sem ter ideia do que há de surgir. dias como esses são os que mais me fazem vibrar. na angústia do silêncio, esbarrei nessas imagens com a matéria-prima mais difícil com que já trabalhei: uma última ida à casa que abrigou minha infância. de forma mais direta, diria que essa foi uma última ida à gênese das minhas memórias. não há matéria antes dela. e não houve posteriormente, senão reflexos, distorções e reproduções do que ali vivi, aprendi, vi crescer e morrer. dentro das paredes, os cômodos descansavam em uma paz constrangedora. da exata mesma forma como vi - e deixei - pela última vez. as paredes descascadas desistiram pelo caminho. a casa se permitiu ir, quase como um ser, natural, orgânico, seguindo um curso, um ciclo. não fiz nenhum registro de dentro. não ousei. senão do vitral que iluminou muitas manhãs, tingindo o quarto da parede ao teto rebaixado de ripas de madeira. um único olhar interno que guardei em imagem. a natureza ao entorno segue reinando única. o sol bate num ângulo inigualável daqui. subitamente, me sento observando esses trechos, recortes. e sigo observando. na constante e lisérgica sensação de não mais saber quando se inicia ou se finda, somente presente nas memórias que nos entrecortam, em um looping infinito. sabe-se lá se eu dentro dela ou ela dentro de mim.
*translation at the bottom of the page
alguns outros registros desse pedaço de mundo que resiste na memória.
as cinco últimas fotos são do Octavio Peral.









alguns outros registros desse pedaço de mundo que nem mais a memória dá condição de guardar.
cenas e mais cenas que só resistem e existem em imagens.













gear still:
Nikon N65 | Nikkor 50mm [KODAK VISIONPRO 400 + FUJI 400]
*Unknown cameras on the last photos
gear motion:
Sony zv1
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[ENG]
Memory is the most brilliant of all materials, and the one I love most. Murky, complex, curved, convex, and cracked. A rare yet ordinary brilliance—found in abundance on every street corner, in every turn of the market, every pharmacy scale, avenues, roads, hardware stores, haberdasheries. The brilliance of mother-of-pearl buttons that crack the collar of a blue plaid shirt at three thirty-two sharp in the heart of Cinelândia. A brilliance in the drop of sweat, in the weight of an idea, each with its own shape, luminescence, opacity, carat—each with its own rarity. Sometimes I leave home certain of the raw material I’ll be working with. The kind of memory we are handling, recording, crystallizing through our gaze. Other days, I step out with an open heart, without the slightest idea of what will emerge. Those are the days that make me vibrate the most. In the anguish of silence, I stumbled upon these images, confronting the most difficult raw material I have ever worked with: one last visit to the house that sheltered my childhood. More directly, I would say it was a final journey to the genesis of my memories. There is no material before it. And none after, except for reflections, distortions, and reproductions of what I lived, learned, saw grow and wither there. Within its walls, the rooms rested in an unsettling peace. Exactly as I had last seen them—and left them. The peeling walls had given up along the way. The house allowed itself to go, almost like a living being—natural, organic, following a course, a cycle. I made no records from the inside. I did not dare. Except for the stained-glass window that illuminated countless mornings, dyeing the room from wall to the wooden-slat lowered ceiling. A single inward glance that I captured in an image. The surrounding nature remains sovereign, unrivaled. The sun strikes at an angle unmatched anywhere else. Suddenly, I sit, watching these fragments, these cutouts. And I keep watching. In the constant, hallucinatory sensation of not knowing where it begins or where it ends—only ever present in the memories that intersect within us, looping infinitely. Who’s to say whether I am inside it, or it inside me?